Em projetos complexos, como os do tipo EPCI, sabemos que o cronograma é implacável, a
pressão por prazos curtos, entregas integradas e conformidade técnica é constante.
Qualquer desvio impacta diretamente em custo, segurança e credibilidade com o cliente.
Mas muitas vezes, o que paralisa o avanço de uma obra não é a engenharia, nem a mão de
obra. É a ausência de um item crítico que não chegou — ou chegou fora do padrão.
Já vivi essa situação mais de uma vez. Uma única valvula, um eletrodo especifico, um
certificado pendente. Quando isso ocorre, o prejuízo vai muito além do atraso: afeta
mobilizações, retrabalhos, contratos e, principalmente, a confiança entre as equipes.
A raiz desse problema está na fragmentação dos processos e na falta de comunicação
efetiva entre as áreas técnicas e de suprimentos. Há ainda uma subvalorização da função
estratégica da supply chain. Ela é muitas vezes tratada apenas como uma função
operacional — responsável por emitir pedidos e acompanhar prazos — quando, na
realidade, é uma engrenagem essencial para o sucesso global do projeto.
E não se trata apenas de logística. Trata-se de integração entre áreas. Muitas vezes, a
engenharia especifica o item, mas não se envolve no processo de aquisição. O suprimento
compra, mas não entende a criticidade do prazo. A qualidade aprova, mas só é envolvida
na última hora. O resultado? Um efeito dominó que impacta segurança, custo e prazo —
três pilares que nenhum projeto pode negligenciar.
O que precisamos é de uma mudança de mentalidade. Supply Chain deve estar envolvida
desde o início do planejamento. Materiais críticos precisam ser mapeados e associados a
marcos do cronograma. A comunicação entre Engenharia, Qualidade, Suprimentos e
Operações deve ser clara, contínua e colaborativa. E mais: os indicadores de desempenho
(KPIs) precisam ser compartilhados, refletindo o impacto de cada área na performance do
projeto como um todo.
Existem boas práticas que contribuem para isso. Em um dos projetos em que atuei,
implementamos uma matriz de criticidade para materiais estratégicos, com
acompanhamento conjunto entre Engenharia, Supply e Operações. Isso permitiu
visibilidade real do avanço das aquisições e identificação precoce de riscos. O resultado
foi uma significativa redução de desvios e um ambiente de maior confiança entre as
equipes.
É necessário também reconhecer o valor técnico da supply chain. Não basta ter
habilidades de negociação ou conhecimento logístico. É preciso entender o impacto
técnico e operacional de cada item adquirido, suas especificações, riscos de
obsolescência, prazos de fabricação e exigências regulatórias.
O ponto é: supply chain precisa ser visto como parte estratégica do projeto — e não
apenas como área de compras ou logística.
A integração real entre Engenharia, Suprimentos, Qualidade e Operações é o que
transforma entregas críticas em entregas confiáveis. E isso exige comunicação clara,
padronização, envolvimento técnico desde o início e mindset colaborativo.
Autora: Msc. Paula Siquara