Todos estavam comentando sobre como a futurista Amy Webb realizou um funeral do seu
Emerging Tech Trend Report no palco do SXSW 2026 em Austin — um relatório que ela
publicava há quase 20 anos e que era baixado mais de um milhão de vezes por ano.
Ela estava passando uma mensagem clara: o modelo linear de entender o futuro morreu.
Tendências não chegam mais uma de cada vez, em fila comportada. Elas colidem. Se
amplificam. E quando você percebe o impacto, ele já é sistêmico.
Isso estava claro quando, semanas antes, o World Economic Forum havia publicado o
Global Risks Report 2026 com uma série de riscos que claramente se convergiam. Um
deles, o risco “Adverse outcomes of AI technologies” teve o maior salto entre todos os 33
riscos monitorados globalmente, saltando da posição #30 para #5 no ranking de
severidade de longo prazo, chamando a atenção sobre um dos pontos que ele mais afeta
— a transformação do trabalho.
Em outras palavras: o mundo não está mais discutindo se a IA vai transformar o trabalho.
Está discutindo o que fazer com o estrago que já está acontecendo. E discutiremos outros
efeitos desse risco especificamente representando uma série de novos riscos globais que
já estão presentes em nossa sociedade.
A produtividade que não gera emprego
O WEF tem um nome para o fenômeno: jobless productivity. Produtividade que cresce sem
que o emprego acompanhe.
Uma estimativa otimista projeta que a IA vai criar 170 milhões de novos empregos
globalmente até 2030 — mas destruir 92 milhões. Saldo positivo de 78 milhões, certo?
Errado. O problema não é o saldo. É o timing. Os empregos destruídos desaparecem em
semanas ou meses. Os novos surgem em anos. E as pessoas que ficam no meio desse gap
— especialmente jovens recém-formados e profissionais de funções intermediárias — não
têm para onde ir enquanto esperam.
Não estamos falando de fábricas. Estamos falando de analistas, assistentes jurídicos,
contadores, revisores, desenvolvedores júniores, redatores. Funções que exigem diploma
universitário e que, até ontem, eram consideradas seguras.
A corrida sem arquitetura
Há um ponto que os relatórios medem nos dados, mas raramente nomeiam: boa parte da
disrupção que estamos vivendo não é causada pela IA — é causada pela pressa com que
as empresas estão tentando implementá-la.
Existe hoje uma corrida corporativa alimentada pelo medo de ficar para trás. E nessa
corrida, a pergunta que deveria vir primeiro — onde e como a IA realmente agrega valor
neste negócio? — está sendo sistematicamente pulada. O que se vê na prática é empresas
aplicando IA sobre processos que nunca funcionaram bem, automatizando fluxos
quebrados em vez de repensá-los, e colhendo como resultado uma versão mais rápida dos
mesmos problemas — agora em escala.
O resultado não é transformação. É turbulência desnecessária. E quem paga o preço não
são os sistemas. São as pessoas.
O “K” que ninguém quer ver
O WEF descreve o que emerge como uma K-shaped economy. No ramo de cima:
profissionais qualificados que usam IA como alavanca, multiplicam seu output e
capturam salários crescentes. No ramo de baixo: trabalhadores sem fluência com as
novas ferramentas, funções automatizadas, mobilidade social encolhendo.
O dado que conecta os dois mundos: o risco mais interconectado de todo o relatório, pelo
segundo ano consecutivo, é a desigualdade. Não a guerra. Não o clima. A desigualdade —
porque é o ponto onde todos os outros riscos se encontram.
O que desaparece não é só o emprego
Quando o trabalho desaparece, não é só a renda que vai junto. É a identidade. O
pertencimento. A sensação de contribuir com algo maior do que si mesmo. O WEF chama
essa seção de Purpose in Drift — deriva de propósito. O SXSW chamou de Emotional
Outsourcing: quando até as fontes de suporte emocional migram para máquinas, o tecido
social começa a se desfazer de dentro para fora.
Estamos diante de uma crise que não é só econômica. É existencial.
Então, o que fica?
A pergunta que mais ouvi nos últimos meses, em conversas com líderes e profissionais, é
sempre a mesma: “O que eu faço para não ser substituído?” É a pergunta errada.
A pergunta certa é: “O que eu faço que a IA não consegue fazer — não tecnicamente, mas
estruturalmente?”
Fica quem sabe orquestrar — projetar fluxos onde humanos e sistemas autônomos
trabalham juntos, sabendo quando delegar, como auditar decisões algorítmicas, como
criar accountability onde não há intenção.
Fica quem sabe dar significado — conectar pessoas ao propósito do trabalho mesmo
quando o trabalho mudou.
Fica quem constrói confiança — num mundo de deepfakes e conteúdo sintético em
escala, autenticidade, voz própria e reputação construída ao longo do tempo são ativos
que se valorizam à medida que o resto se desvaloriza.
Fica quem aprende em velocidade — não quem sabe mais, quem aprende mais rápido. A
capacidade de identificar o que ficou obsoleto no próprio repertório e substituí-lo sem
crise existencial é, em si, a competência mais valiosa do próximo ciclo.
A boa notícia
É aqui que vale lembrar: toda grande transição tecnológica — da eletricidade à internet —
começou eliminando certezas antes de abrir possibilidades. E em todas elas, quem
chegou antes na pergunta certa saiu na frente.
Estamos diante de uma das raras janelas da história em que pessoas comuns, com acesso
a ferramentas extraordinárias, podem fazer, em poucos meses, o que antes exigia equipes
inteiras e orçamentos robustos. A mesma tecnologia que desloca funções também
democratiza capacidades que sempre foram privilégio de poucos. Escrever, analisar,
programar, prototipar, ensinar, criar — tudo isso ficou, de repente, ao alcance de quem se
dispõe a aprender.
Amy Webb, no SXSW, propôs um conceito que não saiu da minha cabeça: contribution
credit — um modelo onde atividades historicamente invisíveis ao mercado, como cuidado,
mentoria e construção de comunidade, seriam economicamente reconhecidas a partir do
valor gerado pela automação. Pode parecer utópico. Mas é um lembrete de que as regras
do jogo não são leis da física — são escolhas humanas. E, pela primeira vez em muito
tempo, temos tecnologia e dados suficientes para redesenhá-las de forma mais justa.
Se a IA vai gerar riqueza em escala sem precedentes, a pergunta não é apenas para quem
ela vai — é o que vamos construir com ela. E essa é uma pergunta que ainda está em
aberto.
A janela para escolher bem está se fechando mais rápido do que muitos líderes percebem.
Mas ela ainda está aberta. E é justamente aí que mora a oportunidade: organizações,
líderes e profissionais que decidirem agir com intenção — e não apenas reagir ao medo —
vão definir não só o próximo ciclo econômico, mas o tipo de sociedade que sai dele.
O futuro do trabalho não está escrito. Ainda dá tempo de escrevê-lo bem.
Autora: Cintia Scafutto