mmmm
✕

Deriva de Propósito — O Risco Que Ninguém Está Gerenciando

Publicado por Instituto MEO em 22 de maio de 2026

Quando o trabalho perde significado e as instituições perdem legibilidade ao mesmo tempo, o resultado não é apenas crise corporativa. É apatia coletiva.


O WEF Global Risks Report 2026 trouxe uma formulação que passou quase despercebida no debate público. Numa seção chamada Purpose in Drift, o relatório descreve um dos riscos emergentes da próxima década como uma deriva rumo à falta de propósito, à apatia e à deterioração social. Não é uma crise corporativa isolada. É a convergência de dois movimentos que tratei separadamente nos artigos anteriores desta série.

No primeiro, O Trabalho que Desaparece, falei da deriva pelo lado das pessoas: quando o trabalho some, vão junto a identidade e o pertencimento. No segundo, Autenticidade como Vantagem Competitiva, falei pelo lado das instituições: num ambiente onde até infraestruturas digitais têm incentivo para amplificar o falso, a confiança virou commodity rara. O risco que o WEF nomeia é o que acontece quando essas duas erosões ocorrem ao mesmo tempo, em escala, sem que ninguém esteja gerenciando.

Deriva no nível corporativo

No plano organizacional, proponho chamar de Deriva de Propósito Corporativo o afastamento progressivo e não declarado entre o propósito formal da empresa e o conjunto efetivo de suas decisões, como por exemplo alocação de capital, prioridades de produto, política de pessoas, critérios de aquisição.

Não é purpose washing, que pressupõe incongruência deliberada entre discurso e prática. Não é pivô estratégico, que é decisão consciente, anunciada e governada. É algo mais sutil: o propósito declarado permanece formalmente vigente enquanto a prática se afasta dele em silêncio.

Quatro forças aceleram essa deriva em 2026. A velocidade da IA, que comprime ciclos de produto para meses sem que o propósito seja revisitado na mesma cadência. A recalibração de ESG e a ambiguidade regulatória, que fizeram muitas empresas reduzirem a visibilidade de seus compromissos. A polarização, que tornou o posicionamento público um risco reputacional e levou muitas organizações a um propósito mudo, formalmente mantido e operacionalmente esvaziado. E a pressão de margem em ambiente de capital caro, que retira do orçamento iniciativas associadas a propósito sem que ninguém revogue formalmente o compromisso.

Antes dos números, as pessoas

A deriva corporativa aparece nas pessoas antes de aparecer nos indicadores. A automação não elimina o cargo de imediato — elimina primeiro o núcleo de expertise, a parte do trabalho que dava ao profissional a sensação de que seu julgamento importava. O cargo continua. O salário continua. Mas o que fazia aquele trabalho ser dele foi automatizado. Alguns não perderam o emprego. Perderam a função. E a função era onde a identidade morava.

A Klarna anunciou em 2024 que sua IA fazia o trabalho equivalente a 700 atendentes. Meses depois, admitiu que havia ido longe demais e retomou contratações, porque a experiência do cliente havia se deteriorado. O problema não foi técnico. Foi que ninguém pensou no que as pessoas fariam além das tarefas automatizáveis.

O líder como arquiteto de significado

Viktor Frankl propôs que a busca por significado é a motivação humana fundamental — anterior e mais profunda que a busca por prazer ou poder. Organizações que atravessam transformações radicais sem
hemorragia de talentos são as que têm líderes capazes de responder, coletiva e individualmente, à pergunta que ninguém está fazendo em voz alta: por que eu ainda importo nessa nova configuração?

Isso não é motivação. Não é comunicação interna. É reconstrução de identidade profissional em escala, conduzida pela liderança — o que se pode chamar de arquitetura de significado. Na prática, o líder que exerce esse papel faz três coisas: nomeia a perda, reconstrói o papel e ancora a mudança no propósito da organização — não no ganho de produtividade, não na pressão competitiva, mas na pergunta fundamental: a serviço de que estamos aqui?

Quando a deriva entra no tecido social

A deriva de uma organização isolada produz custos identificáveis: erosão de confiança, perda de talento, falhas de integração pós-aquisição, fragilidade em crises. Quando milhares de organizações derivam simultaneamente, o efeito agregado deixa de ser corporativo. Vira social.

A apatia e a societal decay citadas pelo WEF não são metáforas. São o resultado mensurável de um sistema em que o trabalho perde sentido individual e as instituições perdem credibilidade coletiva, ao mesmo tempo. Cada empresa que mantém propósito formal sem coerência operacional alimenta (em pequena dose, multiplicada por milhares) o ceticismo que erode a confiança em todas as instituições. Cada organização que adota IA sem revisitar sua razão de ser contribui para a jobless productivity que o WEF identifica como gatilho central da deriva social.

O argumento não é moralista. É estratégico. Num ambiente em que IA vira commodity competitiva, regulação vira obrigação e diferenciação por produto se torna efêmera, o ativo escasso que sobra é a coerência. Coerência de propósito é, simultaneamente, vantagem competitiva da organização e contribuição para a contenção da deriva social. Os dois ganhos são inseparáveis.

A pergunta

Em três artigos, mapeei a mesma transição por ângulos diferentes. No primeiro, sobre o trabalho. No segundo, sobre a pessoa. Aqui, sobre a organização — e a liderança que responde por ela:

A serviço de que esta empresa está, de fato, trabalhando hoje — e essa resposta coincide com a que está no relatório anual?

A diferença entre essas duas respostas é a medida exata da deriva. E gerenciá-la, no nível corporativo, é a contribuição mais concreta que uma organização pode dar para a contenção da deriva maior.

Autora: Cintia Scafutto


Este artigo é a terceira edição da série Ponto de Inflexão — Convergências, baseada no WEF Global Risks Report 2026 e nas reflexões do SXSW 2026.

(leia o artigo em sua íntegra no LinkedIn – https://www.linkedin.com/pulse/deriva-de-prop%C3%B3sito-o-risco-que-ningu%C3%A9m-est%C3%A1-scafutto-de-menezes-gipbf)

Compartilhe
Instituto MEO
Instituto MEO
adsf