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Pensar o Fim Desde o Começo:Mobilidade Sustentável,Circularidade e Reindustrialização.

Publicado por Instituto MEO em 27 de janeiro de 2026

A assinatura do acordo de livre‑comércio en‑tre Mercosul e União Europeia, concluída
politicamente em 6 de dezembro de 2024, mas ainda em processo de ratificação formal pelos
países membros, tem o potencial de reconfigurar o horizonte competitivo da indústria brasileira. Ao
mesmo tempo em que abre um mercado potencial de 700 milhões de consumidores, o tratado incorcopora
cláusulas ambientais e de rastreabilidade que impõem um novo padrão de acesso: produtos devem
demonstrar baixa pegada de carbono e alto índice de circularidade para usufruir de preferências tarifárias.
A lógica é clara: na Europa, qualquer bem que pretenda entrar sem barreiras precisará provar que
atende a regulamentos cada vez mais exigentes em matéria de clima e recursos. Para o Brasil, tradicional
fornecedor de commodities, essa transformação pode representar uma oportunidade decisiva de reposicionar-se
como provedor de soluções industriais de vanguarda, alinhadas às metas globais de descarborização.

Essa janela geopolítica coincide com o endurecimento das regras europeias para veículos em fim de vida.
A Diretiva ELV, revisada em 2023 e em vias de tornar‑se regulamento, estabelece que 95 % da massa
dos veículos deverá ser recuperada, restringe substâncias perigosas e exige passaporte digital de materiais
para cada modelo lançado. Em junho de 2025, o Conselho da União Europeia adotou posição que
transforma essas metas em exigências vinculantes já na fase de projeto, banindo inclusive a trituração de
sucata automotiva misturada a outros resíduos caso não haja comprovação de qualidade nos fluxos de
saída. O recado é inequívoco: quem não redesenhar plataformas e cadeias de suprimento para desmontagem
fácil, logística reversa eficiente e rastreabilida de integral perderá competitividade, não apenas na
Europa mas em todo ecossistema conectado a suas cadeias globais. O Brasil decidiu responder de forma simétrica. O
Decreto 12.435, de 15 de abril de 2025, regulamentou o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e estabeleceu metas obrigatórias de reciclabilidade de 80 % para veículos leves a partir de 2027, subindo gradualmente nos próximos anos, condicionou incentivos fiscais à demonstração de redução de emissões “do poço à roda” e criou o FNDIT
(Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico) como fonte para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor automotivo instituindo um Conselho Gestor para financiar programas de P&D no setor automotivo. A medida reposiciona o setor automotivo nacional, forçando montadoras, sistemistas e a nascente cadeia de desmontagem a cooperarem em arquitetura de produto, classificação de materiais e padronização de certificados
de conformidade ambiental. Ao acolher, em grande parte, o espírito da diretiva europeia, o MOVER
facilita futuras equivalências regulatórias, condição essencial para exportar veículos, componentes
e serviços de engenharia para o mercado europeu sob o aguardado novo acordo comercial.
A adoção de critérios de circularidade também dialoga com outro ativo estratégico brasileiro: a matriz
elétrica amplamente renovável. Dados oficiais do Ministério de Minas e Energia indicam que, em
2024, 88% da eletricidade gerada no país veio de fontes renováveis como hidrelétrica, eólica, biomassa
sa e solar. Essa circunstância confere vantagem com petitiva aos bens manufaturados localmente, porque
embute menor carbono “invisível” em aços, alumínio, polímeros e baterias. Quando o produto chega à
alfândega europeia, sua pegada de escopo 2 já é, de partida, mais baixa que a de similares fabricados em
regiões dependentes de carvão ou gás natural.
Beneficiar‑se dessa vantagem, porém, exige revigorar as cadeias produtivas internas. O modelo linear
de extrair, processar, usar e descartar, não apenas desperdiça valor econômico, mas também perpetua
riscos de suprimento, já que insumos críticos como níquel, lítio e outros mostram volatilidade crescente.
Ao migrar para fluxos circulares de desmontagem, remanufatura e reciclagem avançada, a economia
nacional reduz dependência de matérias‑primas importadas, retém capital dentro do território e cria
empregos qualificados em engenharia de materiais, tratamento de resíduos e serviços digitais de rastreabilidade. O grafeno, por exemplo, com sua resistência mecânica superior e alta condutividade elétrica,
surge como material estratégico para reforçar a circularidade no setor automotivo, permitindo o desenvolvimento
de componentes ultraleves e duráveis que facilitam a desmontagem e a remanufatura, ao
mesmo tempo em que elevam a eficiência energética de baterias e estruturas veiculares.
Há também um efeito urbano direto. Relatório do Fórum Econômico Mundial em 2020 estimou que,
combinadas, eletrificação da frota, conectividade veicular e integração a redes inteligentes podem reduzir
em até 30 % as emissões de CO2 nas grandes cidades até 2030, além de aliviar congestionamentos
e ruídos urbanos. Nesse cenário, a circularidade emerge não como despesa, mas como estratégia de
reindustrialização verde. O redesenho de produtos para múltiplos ciclos de uso valoriza competências
nacionais em engenharia mecânica, química e de software, além de atrair investimentos estrangeiros
interessados em plataformas abertas de inovação. Fundos europeus de transição justa já sinalizaram
preferência por projetos que combinem redução de emissões, circularidade de materiais e impacto socio
econômico positivo em comunidades locais. A credibilidade internacional gerada por essas convergencias
regulatórias e financeiras pode posicionar o Brasil como ator chave na corrida global pela
mobilidade sustentável, uma vez que o país sinaliza compromisso de longo prazo com o Acordo de
Paris, algo cada vez mais valorizado por empresas multinacionais que buscam cadeias de abastecimento
to alinhadas a metas de neutralidade climática. Essareputação facilita não apenas a atração de fábricas
“verdes”, mas também a celebração de contratos de compra de energia renovável, acordos de cooperação
tecnológica e desenvolvimento de plataformas de software de gestão de ciclo de vida.
No plano doméstico, a adoção de padrões circulares fortalece a dimensão social da sustentabilidade
ao criar empregos de qualidade em desmontagem, triagem de materiais e manutenção avançada, setores
tradicionalmente menos visíveis na hierarquia industrial. Essas oportunidades podem contribuir
para, por exemplo, reindustrializar regiões, ao mes mo tempo em que fomentam novos ecossistemas de
inovação na interface entre design de produto, ciência de dados e manufatura avançada.
A convergência de dimensões como geopolítica, regulatória, energética, financeira e socioambiental,
forma o pano de fundo de uma oportunidade singular. Se aproveitada com visão sistêmica, ela pode
impulsionar um processo de reindustrialização verde capaz de reposicionar o país na fronteira tecnologica
e abrir um ciclo virtuoso de crescimento inclusivo. Mas, essa janela não permanecerá aberta
indefinidamente. A partir de 2027, as exigências do MOVER passarão a valer no mercado interno; e, à
medida que entrem em vigor as regras europeias de passaporte digital e conteúdo reciclado, a tolerância
a produtos não‑circulares tende a cair também em outros destinos comerciais.
A transição para uma economia de baixo carbono e alto índice de recuperação de materiais deixa de
ser tendência para tornar‑se pré‑requisito de competitividade. Combinando matriz energética limpa,
base industrial diversificada e arcabouço regulatório convergente com as principais economias, o Brasil
tem condições de participar ativamente deste processo. O sucesso, contudo, dependerá da capacidade
de articular política pública, ciência de materiais, inovação financeira e integração de cadeias de valor
num projeto que “pense o fim desde o começo”, fazendo da circularidade não um apêndice, mas o
próprio motor do desenvolvimento da mobilidade sustentável.

Autora: Maria do Carmo Rodriguez

É doutoranda na UPM, pesquisadora em mobilidade sustentável e cidades inteligentes. Executiva de marketing com
atuação regional na América Latina, desenvolveu sua carreira em empresas como Colgate, AmBev, ArcelorMittal e
Brametal, onde liderou projetos de estratégia, inteligência de
mercado e comunicação corporativa nos setores automotivo,
de energia renovável, siderurgia e bens de consumo. É mestre em Marketing (Mackenzie), com MBA pela FGV e especializações em ESG (FIA) e Mobilidade Elétrica (Unicamp).

Fonte: Revista Grafeno, Setembro, 2025.

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