Autora: Cintia Scafutto de Menezes
Baseado na apresentação do Professor Karthik Ramanna
No meu segundo artigo sobre o HBR Leadership Summit 2025, vou comentar sobre a
excelente apresentação do professor Karthik Ramanna, da Universidade de Oxford,
baseada no seu livro The Age of Outrage – How to Lead in a Polarized World, que me trouxe
muitas reflexões. Uma verdadeira aula de liderança com propósito em um cenário cada
vez mais complexo.
O livro é um guia prático para líderes enfrentarem os desafios de um mundo cada vez mais
polarizado e marcado por indignação social. Baseado em seu curso de liderança na
Universidade de Oxford e em estudos de caso de organizações como Disney, IKEA, Nestlé
dentre outros, Ramanna oferece estratégias para compreender e lidar com a indignação
pública de maneira eficaz e construtiva e trouxe alguns insights sobre a “Era da
Indignação” em que vivemos, marcada por:
Medo do futuro: Incertezas relacionadas a mudanças climáticas, instabilidade
econômica, envelhecimento demográfico, avanços tecnológicos como a IA, a
questão das migrações ou conflitos armados. As pessoas passaram a acreditar que
terão um futuro pior do que o agora
Sensação de injustiça: Muitos sentem que as instituições públicas e privadas
falharam com a sociedade. Eles têm a percepção de que instituições e líderes
falharam em tratar as pessoas de forma justa, exacerbada por desigualdades e
desconfiança das elites. As pessoas se sentem mal tratadas e manipuladas pelo
“establishment”.
Crescimento da mentalidade “nós contra eles”: Há um aumento do tribalismo,
da polarização e divisão social. Aumento da marginalização de grupos, levando a
uma visão binária da sociedade. De certa forma os dois primeiros itens reforçaram
esse terceiro ponto que marca essa era de indignação.
Esses fatores, intensificados pelas redes sociais, transformaram a indignação em um
desafio constante para líderes.
As sociedades estão ficando mais raivosas e polarizadas. Os stakeholders, sendo
colaboradores, parceiros comerciais, clientes estão interagindo de forma mais agressiva.
Como liderar nesse cenário? Os gestores precisam usar cada vez mais o bom senso não
entrar nessa turbulência.
Dois pontos importantes para os líderes:
1. Você não pode resolver tudo – a polarização é complexa demais para ser resolvida
por uma única organização.
2. Você será visto como parte do problema – é impossível agradar a todos; liderar
hoje requer aceitar críticas inevitáveis.
Ramanna propõe um modelo poderoso de 5 passos, que de forma resumida consiste em:
1. Reduzir a temperatura: Criar um ambiente propício ao diálogo, controlando
emoções — tanto as suas quanto as dos stakeholders — para permitir diálogos
racionais. Desarme emocionalmente a situação. Usar empatia, escuta ativa e
inteligência emocional para criar espaço para o diálogo.
2. Compreender o momento: Analisar as causas profundas da indignação, os
gatilhos e identificar oportunidades de ação. Criar redes de escuta ativa com
stakeholders para antecipar crises e entender mudanças sociais antes que elas se
tornem críticas.
3. Defina sua estratégia: Escolher qual parte do problema sua organização deve (e
pode) assumir – e qual deve deixar de lado. Isso evita sobrecarga e desalinhamento
com o propósito. Delimitar a resposta avaliando as capacidades da organização
que deve estar alinhada a sua missão.
4. Implementar com empatia: Ao executar a estratégia, priorizar ações que
aumentem, e não drenem, a boa vontade dos stakeholders. Envolver e educar a
organização no processo. Entender o poder de mobilização do líder e reconhecer os
limites e possibilidades de influência, promovendo relações baseadas na confiança
mútua.
5. Construir resiliência: A liderança em tempos de polarização é desgastante. É
essencial investir na resiliência pessoal e institucional para sustentar mudanças de
longo prazo. Fortalecer a organização para enfrentar futuras crises, promovendo
uma cultura de aprendizado e adaptação. Nesse caso, cuidar da saúde emocional e
da energia da equipe e da liderança é fundamental — é uma maratona, não uma
corrida.
Ramanna expressa uma verdade bem incômoda:
“Não é um concurso de popularidade. Liderar nesta era exige coragem moral, clareza
estratégica e capacidade de escutar antes de reagir.”
Um exemplo que foi dado, o caso da Disney, onde a companhia tentou se omitir de um
debate sobre uma lei anti-LGBTQ+ na Flórida. A omissão gerou revolta interna e externa,
pois sua marca já era vista como inclusiva. Depois, ao tentar “consertar”, foi tarde demais.
A lição: seu posicionamento já está implícito em sua estratégia e cultura — não dá
para fugir.
Casos como o da Disney ilustram como as empresas não podem se esconder da conversa
pública — especialmente quando os valores da marca estão em jogo.
Uma reflexão atual e urgente para quem lidera organizações com impacto social.
